INDÍGENAS XUKURU

TRABALHADORES NA AGROINDÚSTRIA

EM PESQUEIRA/PE:

MEMÓRIAS, COTIDIANO E HISTÓRIA

IVONE MARIA DOS SANTOS GOMES

As Ciências Sociais e Humanas há algum tempo vem tentando fazer justiça às memórias, as experiencias e trajetórias das pessoas e dos povos que foram esquecidos nos acervos, arquivos, museus e documentos oficias. Pesquisadores nos cursos de pós-graduações por todo país veem produzido a partir de pesquisas junto aos povos indígenas diversos estudos sobre a organização social, a cultura, as trajetórias históricas, a cosmologia e cosmovisão dos índios no Brasil. Essa produção ainda que considerável, não consegue dar contadas temáticas as serem estudadas sobre esses povos.

Professores, alunos e a população em geral precisam aprender com base em subsídios de pesquisas ainda mais sobre os povos que constituem nosso país, e que se encontram ainda mobilizados pelo reconhecimento e respeito de suas terras e de sua cultura. Com os desmonte das políticas públicas da saúde, da educação e da garantia dos direitos dos povos indígenas em nosso país estamos limitando as possibilidades de pensarmos e produzirmos a respeito desses povos. O corte de incentivos a pesquisa em dezenas de bolsas de Mestrado e Doutorado pelas Universidades Públicas no Brasil é prova disso. É um desrespeito ao direito do conhecer e ter acesso a construção de conhecimentos, um desrespeito sobre o que determinou a Lei nº 11.465/2008 que incluiu no currículo da escola a obrigatoriedade do estudo da temática “História Cultura Afro-brasileira e Indígena”.

Pensando em todo esse retrocesso foi que em nossa pesquisa buscamos discutir as experiências dos trabalhadores Xukuru do Ororubá[1]e a trajetória desde o momento das invasões suas terras na Serra do Ororubá até as migrações para a área urbana de Pesqueira e o ingresso como operários nas fábricas da cidade, no momento áureo da agroindústria.

Convém explicar como ocorreu o nosso primeiro contato com o povo Xukuru do Ororubá 2016, quando ainda estudante do Programa de Especialização em Culturas e Histórias Indígenas na UFPE- Campus Caruaru. Ingressei no curso para aperfeiçoar meus conhecimentos sobre a temática indígena, e acabei tendo contato com a História e a Cultura do povo Xukuru do Ororubá quando conheci um dos professores do curso, o Prof. Dr. Edson Silva. Foi desse contato que surgiu o meu primeiro trabalho sobre os Xukuru do Ororubá, intitulado de “Narrativas indígenas sobre os bairros ‘Xucurus’ e Caixa d´água em Pesqueira/PE: sugestões para efetivação da Lei n° 11.645/2008”, coma orientação da Profa. Maria da Penha da Silva.

Depois desse estudo, a convite do Prof. Edson Silva e da Profa. Maria da Penha da Silva participei de uma visita pedagógica que coordenaram ao Museu do Doce na Cidade de Pesqueira. Foi então que o Prof. Edson Silva me chamou a atenção para o trabalho que os Xukuru do Ororubá desempenharam nas fábricas de doces e conservas em Pesqueira durante o período do apogeu da agroindústria naquela cidade. Imediatamente o assunto me chamou atenção e resolvi começar a elaborar um projeto de pesquisa sobre o tema. Para isso, incialmente pesquisei uma vasta bibliografia produzida sobre a história do povo Xukuru do Ororubá.

Depois realizei uma pesquisa de campo preliminar, observando um pouco do cotidiano e a dinâmica sociocultural daquele povo. Ao mesmo tempo que observava, anotava as minhas primeiras impressões em um Diário de Campo.  Logo as anotações foram tomaram corpo a partir de conversas com algumas lideranças do povo Xukuru do Ororubá. E foram essas primeiras conversas que me levaram a ter contato com o primeiro entrevistado o Pajé Zequinha que por muitos anos trabalhou como operário na Fábrica Peixe. O pajé indicou, o próximo entrevistado o Senhor Jorge de Tavares, e assim nosso trabalho foi sendo construído a partir dos dados de pesquisadores que estudaram e estudam o povo Xukuru do Ororubá, com minhas impressões em campo e relatos orais dos indígenas que entrevistei.

Os entrevistados são senhores com mais de 80 anos de idade que resguardam em suas memórias as lembranças da infância e da adolescência marcadas pela experiência do trabalho na agroindústria de Pesqueira. Além das lembranças, os entrevistados também narraram sobre seus antepassados e todo o processo de esbulho de suas terras na Serra do Ororubá, as situações que provocaram as migrações dos entrevistados para a zona urbana a fim de trabalharem na agroindústria pesqueirense. As narrativas dos antepassados fazem parte da tradição oral do povo Xukuru do Ororubá. Todas as narrativas, as das memórias individuais dos nossos entrevistados e as que fazem parte da tradição oral do povo indígena, tornaram-se fontes preciosas para nossa pesquisa.

Depois de analisar as fontes orais e bibliográficas percebi que o meu objetivo inicial que era o de pesquisar sobre as experiências dos entrevistados, como trabalhadores da agroindústria em Pesqueira, só faria sentido se expusesse as experiências desses entrevistados sobre as situações que os levou a migrarem para a área urbana da cidade de Pesqueira, os seja, a experiência com as invasões de suas terra na Serra do Ororubá. Ainda observando as conversas e as entrevistas semiestruturadas realizadas, observei que os conteúdos estavam carregados das vivências com os não indígenas moradores da área urbana, de aspectos relacionados a dinâmicas de suas famílias quando da vinda delas para a zona urbana e do papel dos órgãos agenciadores junto a esses trabalhadores no momento do declínio da agroindústria no município de Pesqueira. A pesquisa foi se ampliando com os contatos em campo por cerca de seis meses entre o mês de maio e outubro de 2019.

Estruturamos nosso estudo da seguinte forma. No primeiro capítulo intitulado “Memórias, esbulhos, diáspora e territorialidade”, na primeira seção apresentamos “As experiências dos trabalhadores Xukuru do Ororubá com o processo de invasões de suas terras e as migrações para a zona urbana de Pesqueira. Procuramos expor e analisar as memórias dos entrevistados com relação aos esbulhos de suas terras na Serra do Ororubá como os mesmos com e suas famílias instalaram-se na zona urbana de Pesqueira. O objetivo foi expor aspectos que compõem o sentimento de desenraizamento territorial vivenciado pelos indígenas e as adaptações destes a um novo território.  

No subitem discutimos os sentidos que os trabalhadores Xukuru do Ororubá atribuíram a moradia nos bairros periféricos próximos ao território indígena na Serra do Ororubá, onde procurei evidenciar que com base na cosmologia e cosmovisão dos indígenas, os sentimentos de territorialidade. E compor vínculos familiares e de amizades alguns se estabelecerem na zona urbana de Pesqueira e procuraram habitar bairros periféricos mais próximos a Serra do Ororubá.   Nesse subitem dissertei a respeito dos benefícios sociais, culturais, comunitários e de afetividade dos Xukuru do Ororubá residentes na zona urbana naquele período de afastamento da antiga morada.

No Capítulo 2, “Trabalho, moradia e organização familiar apresento os trabalhadores Xukuru moradores na cidade e as formas de sociabilidade com os moradores não indígenas”, busquei descrever sobre as formas de interações sociais elaboradas pelos indígenas para se sociabilizarem com os moradores não indígenas na cidade. Tratando sobre o convívio com vizinhos e com a sociedade envolvente. Nesse capitulo comentei sobre a organização da dinâmica familiar dos trabalhadores Xukuru do Ororubá moradores na área urbana, relatando características a respeito do cotidiano das famílias indígenas inseridas em um outro contexto, o da zona urbana. Procurei analisar como passaram a organizar a educação dos filhos, o cuidado com a saúde, a vida profissional e etc.

Em se tratando do capitulo 3, apresentei o tema sobre o trabalho, identidade, direitos e relações interétnicas, considerando os aspectos sobre o que é ser Xucuru do Ororubá e/ou ser trabalhador na fábrica: as experiência da negação ou reafirmação da identidade indígena no cotidiano fabril. Observando como os entrevistados pensavam suas identidades durante o cotidiano do trabalho na fábrica. Nesse capitulo também evidenciei as relações entre os chamados “porcos” e os “os registrados”: as distinções identitárias e as negociações dos direitos trabalhista, discuto como as identidades eram manipuladas no cotidiano da fábrica para garantir ou negar direitos trabalhistas.

No item “Trabalhadores Xukuru e trabalhadores não indígenas: as relações interétnicas no cotidiano da fábrica” procurei discutir como eram estabelecidas as relações profissionais e de amizade entre os indígenas entrevistados e os não índios na fábrica. E por último apresentei considerações sobre o agenciamento indígena: o declínio da agroindústria pesqueirense e os contatos dos trabalhadores Xukuru do Ororubá com o Serviço de Proteção aos Índios/SPI, analisando como ocorreu as aproximações dos Xukuru do Ororubá com o órgão indigenista oficial, após a crise que diminuiu consideravelmente as atividades industriais das fábricas de doces e conservas no município de Pesqueira.

Anexamos também aos estudos as Notas do Diário de Campo, pois nessas anotações o/a leitor/a pode constatar um pouco da nossa metodologia e ainda acessar informações que não se encontram no corpo do nosso t estudo. São aspectos tratando das pessoas com as quais conversamos e entrevistamos, e de lugares que visitamos, como por exemplo, participação na 19° Assembleia Xukuru do Ororubá a visita ao Museu do Doce em Pesqueira.

 

[1] Os Xukuru do Ororubá, habitantes em Pesqueira e Poção afirmam ter escolhido essa autodenominação, para não serem confundidos pelos não-índios (leia-se a imprensa e a sociedade em geral) e com um outro povo indígena, os Xukuru-Kariri a maioria habitando no Município de Palmeira dos Índios/AL e também em Paulo Afonso/BA e Caldas/MG. Em 2003 após conflitos internos provocado inicialmente por um grupo dissidente resultando em violências e assassinatos na Aldeia Vila de Cimbres, famílias indígenas expulsas do território Xukuru do Ororubá, se autoproclamaram “Xukuru de Cimbres” e atualmente são reconhecidas como um povo indígena habitando na área urbana de Pesqueira e em um território que compreende parte dos municípios vizinhos pernambucanos de Alagoinha, Venturosa e Pedra (SILVA, 2018, p. 29-46).

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